sábado, 20 de agosto de 2011

A percepção de uma alma única

Hoje assisti uma performance de dança muito Clarice. Mesmo sabendo o que o efeito Lispector traz em mim, sempre tenho a sensação que estive ali, dentro do significado das suas palavras pela primeira vez.

Pegamos a frágil vermelha e fomos em direção ao Sesc Prainha assistir Clariarce - Um solo de dança com Jussara Miller. Noite fria, porém aconchegante. O vento gelado soprava em minha pele a cada acelerada. Pouco movimento entre o percurso seguido.
Chegada vazia e surpreendida por um guardinha que não gostou da iniciativa de estacionarmos num local privado. Enfim, acabou cedendo. Gentileza sua.
Recepção calada, com poucos corpos aquecidos um ao outro. Espera curta, dada a ler um pouco sobre o espetáculo. Próximo ao iniciar acumularam-se rostos o suficiente para preencher a tez da bailarina.

Ao entrarmos ganhamos bolinhas de gude. Como podem imaginar, as cenas de infância rapidamente vieram a mente. E a pergunta: Para que serviria? Momentos depois, a descoberta.

Tela com imagens, a princípio, não identificáveis. Gotas de água caindo de uma luminária feita de pedra de gelo suspensa no "céu" e de lá debruçada sobre o solo uma bacia de alumínio cheia d'água. Pausa. Adorei aquele efeito.
Uma rosa também suspensa no ar, metáforas, silêncio! Leves movimentos, um vestido branco cobrindo sua aura tão profunda, tão silenciosamente profunda...
"Conto os instantes que pingam"

A poesia cantada em sua boca, o balanço do vazo cheio de bolinhas - aquelas de gude - com a Rosa protegida e enfeitadando o espaço com focos de luz. Vez enquando ouvia-se música tocada.

Pois bem, descobrimos o propósito das bolinhas... a plateia foi convidada a arremessá-las ao palco. Chuva, granizo, sentimentos? A vida coberta por pequenos passos transitáveis.

Pediu-se fotos dos seus olhares e preenchimentos suaves.

Silêncio. Era preciso acalmar para poder tocar.

Água purificando seu corpo, suas mãos. E veio as palavras propriamente ditas, escritas no pano, digitadas ao som da datilografia. Que beleza, pensei.

Seus dedos apropriavam-se da sombra ao fundo. Um quadro pouco focado. Outra pele, esta de negro. Mais movimentos, e sim, sua boca deleitava-se com o sabor dos poemas melancólicos. Seu corpo ao chão debatia-se. Ouve?

Tilintar da máquina de escrever. Novos versos. Novas sombras. Mesma aura.

Uma chuva de granizo. O Foco. A Sombra...

Acreditem. Descobri naqueles minutos, diante de muitas pausas que até poderia causar um certo desconforto, o propósito que procurava.

Um comentário:

  1. os talos sonhos



    silêncio:

    do balanço solto
    entre treva e tênue
    este corpo se abre
    como o olhar do sabre

    ( olhos de candelabros )

    lábios ab
    sinto-os em mim
    nesse marfim de ou
    vidros

    - tristes sentidos -

    ouça-os
    pelos poros em flor
    de flagrante fragrância
    a aflorar a melodia da sílaba
    que sibila ao assovio do vento

    entre o paraíso e (a)o inferno
    (com)
    essa língua de gemidos tenros

    são tensos os passos em silêncio
    cuja esperança da pálpebra polida
    a dedos é a vida em incenso

    língua ávida
    de alvas asas
    da garça longilínea
    ave que se vê ao avesso
    na lâmina d'água

    - e a vida não terá domínio sobre esta míngua ?

    abro-a ao meio
    a dobradura das asas
    que inflama rochas contíguas

    - unhas virilhas fulvas -

    os talos sonhos
    escondem sinuosos enredos

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